CANÇÕES DO ALÉM – GOSTAVA TANTO DE VOCÊ

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Alguns leitores deste blog me acusam de forçar a barra para encaixar a temática da morte em algumas canções que falam apenas de amor. Mas o que ocorre aqui é o exato contrário: VOCÊS é que forçam a barra ao não quererem encarar a verdade. Vocês é que não percebem que falam de morte até quando acham que falam de amor e outra coisas. Portanto, nem adianta quererem discutir: a canção “Gostava tanto de você”, eternizada na voz de Tim Maia, é mais uma canto fúnebre SIM, triste SIM, que tem a morte como elemento central SIM. Pois somente sob esta ótica a letra desta conhecida campeã de rodas de violão faz algum sentido.

Primeiro, atentem para o tempo verbal do título e do refrão. O nosso personagem GOSTAVA de alguém, o que pode ser entendido de duas formas: quem canta gostou de alguém e agora não gosta mais ou gostou de alguém que agora NÃO EXISTE MAIS. Como não faz o menor sentido criar uma canção para alguém que você não gosta, o empacotamento do objeto amado fica mais do que patente. O que se comprova logo no início.

Não sei por que você se foi

Quantas saudades eu senti

E de tristezas vou viver

E aquele adeus não pude dar

Para mim está claro: a canção se refere a alguém que morreu e, pior, de forma REPENTINA. O “Não sei por que você se foi” revela uma certa negação da morte, muito comum de viúvas de quem foi pras picas e sem ano pra voltar. Reparem também na fatalidade melodramática do verso “E de tristezas vou viver”. Pensem comigo: não é trágico e fatalista demais para alguém que tenha levado um simples pé-na-bunda? O último verso fecha o caixão: “Aquele adeus não pude dar” trata-se de um típico lamento de alguém que perdeu o ser amado sem esperar. Quem nunca ouviu um “puxa-nem-pude-me-despedir-de-fulano” ao se referir a uma morte inesperada? É muito comum. Provavelmente este sujeito, ou esta mulher, é daquele tipo que se remói de culpa e ainda se joga sobre o caixão no velório, ou no enterro, e berra “Não se vá, Edinaldo!”, aquele tipo de gente que paga mico em velório, desmaiando. Um horror.

Você MARCOU na minha vida

Viveu, MORREU na minha história

Chego a ter medo do futuro

E da solidão que em minha porta bate

Trecho cuja primeira metade é bastante auto-explicativa e prescinde de maiores desdobramentos: está se falando de morte LITERALMENTE. Quem nega isso não apenas é burro como tem sérios problemas de alfabetização. E a preocupação com o futuro é coisa de gente que perdeu alguém sem ter um seguro de vida ou uma herança para receber. Ou seja, quem morreu deixou o outro na merda. Provavelmente com dívidas. Troque a metafórica “da solidão” por “do cobrador” e releia o trecho todo. Não faz mais sentido agora?

Eu corro, fujo desta sombra

Em sonho vejo este passado

E na parede do meu quarto

Ainda está o seu retrato

Aquele que achar que há romantismo neste trecho merece um tratamento psiquiátrico. Nada pode ser menos romântico que uma pessoa que sonha com o passado e foge correndo das “sombras”. Isto é coisa de filme de terror. Há, claramente, uma boa dose de CULPA aí, irremissível, das brabas, e que permeia todo o restante da canção. Outro detalhe importante: que tipo de gente inútil e sem auto-estima mantém na parede do quarto a foto de quem lhe deu um fora? Ninguém. Se não acredita em mim, olhe para as paredes da sua própria casa, do seu próprio quarto, e procure a foto daquela vagabunda, ou daquele safado, que um dia lhe chutou. Encontrou? Claro que não. Você é normal! Agora procure pela foto de um avô querido que já partiu, de uma mãe que já faleceu, de um pai ou um amigo que você nunca vai esquecer. Se você for alguém com coração e que preza a família tenho certeza que você terá uma foto assim. Não acertei?

Não quero ver pra não lembrar

Pensei até em me mudar

Lugar qualquer que não exista

O pensamento em você.

Notem que retirar o retrato da parede não basta. Porque esta pessoa cogita até em se mudar de LUGAR para não pensar no outro. O correto aqui (caso a canção se referisse a alguém que ainda estivesse respirando, claro) seria o medo de reencontrar o ser amado com outro, ou com outra, mais feliz, reconstruindo sua vida. Mas o narrador nem sequer pensa nisto. Ele apenas quer evitar de PENSAR em quem partiu, e só. Se isto não servir de prova que a canção fala de alguém que bateu as botas, não sei o que mais pode provar.

Alguns críticos consideram esta letra estranha e um tanto fraca. Nem uma coisa nem outra. A letra de “Gostava tanto de você” é claríssima e revela o desespero profundo de alguém que não aceita a morte do ser amado a ponto de cogitar mudar de casa, e de vida, para tentar superar a perda. E vocês cantando isso em barzinhos… A humanidade é desprezível.

______________________________________________________________________________________

P.S.: Um leitor acaba de me enviar uma informação que eu desconhecia por completo. Parece que circula pela internet um BOATO de que esta música, gravada por Tim, mas composta por Edson Trindade, fala da morte da filha do compositor. Só tenho duas coisas a dizer: a primeira é que a coincidência comprova que minhas análises de “Canções do Além” trazem mais verdades do que gostariam meus críticos e reiteram o que escrevi em meu primeiro parágrafo. A segunda é que não me lembro se a história da filha do Edson Trindade é boato…

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30 respostas para CANÇÕES DO ALÉM – GOSTAVA TANTO DE VOCÊ

  1. Edna Trindade disse:

    Sou irmã do Edson Trindade e sei da estória. Musica feita para
    a segunda esposa Graça que o abandonou e lá na nossa casa tinha por muito tempo foto dela na parede. Procuro aqui por meu sobrinho Erick Baptista Trindade pois no face achei a Graça com suas duas filhas dele também Claudia e Gabriela que estam bem vivas………..

  2. Mnteiro disse:

    analisa essa musica:
    As luzes da cidade acesas
    Clareando a foto sobre a mesa
    E eu comigo aqui trancado
    nesse apartamento
    Olhando o brilho dos faróis
    Eu me pego a pensar em nós
    voando na velocidade
    do meu pensamento

    E saio a te procurar
    nas esquinas
    em qualquer lugar
    e as vezes chego a te encontrar
    num gole de cerveja
    E quando vem a lucidez
    estou sozinho outra vez
    E entao volto a conversar
    com minha tristeza

    Vou chorar, desculpe mas eu vou chorar
    Nao ligue, se eu não te ligar
    Faz parte dessa solidão
    Vou chorar, desculpe mas eu vou chorar
    Na hora em que voce voltar
    Perdoe o meu coração.

    (Leandro e Leonardo
    Desculpe, Mas Eu Vou Chorar
    Leandro e Leonardo)

  3. Anônimo disse:

    jjj

  4. Handan disse:

    Rs, sem problemas, Nepf4. Eu etdnneo. O livro tem coisas bem interessantes, mas e9 claro que, como ele mesmo indica, precisamos filtrar tudo, e isso inclui o prf3prio livro que diz isso! Rsrsrsrs. Bom, acho tambe9m que pra vc certas noe7f5es je1 este3o mais que consolidadas, mas para quem este1 ainda se graduando como agente de mudane7a (muitos risos para essa definie7e3o, haha) pode ser importante pensar nessas questf5es, sabe? Assim, ver quais se3o as opinif5es de ve1rias pessoas, pensadores etc e ir conflitando-as, pensando em cima delas, discordando, repensando e tal. O livro e9 em formato de entrevista e os entrevistados ve3o falando o que este3o pensando, de uma forma ne3o-imposta, fazendo o leitor pensar tambe9m. Eles mesmo discordam entre si e0s vezes, e9 um die1logo. Talvez seja isso que me fez simpatizar tanto com ele. Gostar 100% de algo e9 difedcil, sempre tem um filtro para fazermos, ainda mais quando o assunto e9 te3o vasto, mas os trechos que eu trouxe para ce1 eu achei que valiam a discusse3o e pelo visto valeram Isso que importa, ne9? Discordar e9 viver! Hahaha. Saudades dos debates ao vivo entre os Agentes de Mudane7as 2.0. Bjs!

  5. Ou morte cade você, eu vim aqui pra só te vê,

  6. klawsdoher disse:

    Reblogged this on Klaws.

  7. Anônimo disse:

    nossa…. impressionada….

  8. Sei que foi na época da Ditadura,
    que muitos morriam (desapareciam) do nada…
    O Sr. Morte está escondendo o jogo (com todo respeito)… conta quem você levou…

  9. Renato Martins Chaves disse:

    É boato !!

    Edson Trindade nunca teve filha.
    Nem Tim Maia

  10. Victória disse:

    Na verdade a música foi composta para o sobrinho dele que morreu. Assim conta a lenta. Boa Morte pra vocês.

  11. Gabriela disse:

    Tb já ouvi falar da história ser sobre alguém que morreu. Impressionante são comentários de quem já viu a explicação e ainda reluta em acreditar!
    Fiquei impressionada de ver o quanto eu sou burra com “vejo flores em vc” do ira e me atentou pra dos titãs tb! caramba!
    Parece que “flor de liz” do Djavan tb é verdade

  12. diegho disse:

    eu ja conheço essa historia sobre a musica ter sido feita para a filha do trindade a bastante tempo, e acredito nao ser um boato.

    e se vc ouvir a musica pensando em uma filha q se foi, ela faz total sentido, mesmo um grande amor pode ser superado, mas perder um filho e algo insuportável

    depois de saber de tal fato, eu nunca mais ouvi esta musica sem ficar triste, embora ainda seja uma musica foda

    “um pai nunca deveria enterrar seus filhos”

  13. Ju disse:

    Morte, não cabe a nós saber se a filha do cara morreu ou não, não foi vc quem a levou?
    Pois então.. VOCÊ deveria saber. :)

  14. Danilo disse:

    Só porque vc acertou na interpretação dessa música não quer dizer as outras estão corretas. =P

  15. Adriana disse:

    Tá ficando esquecida, hein, filha? Aposto que o Niemeyer lembra disso! rs

  16. Lê Scalia disse:

    Também já ouvi essa história sobre a filha do compositor. Continua sendo uma música mto bonita, embora triste.

  17. marciacast2010 disse:

    Será que essa moçada não tá confundindo com o caso do Erick Clapton não!! Mas tudo bem, se era pra causar impacto… pronto, causou!O objetivo real era somente arrancar altas gargalhadas de nós seguidores já que avida é tão cheia de coisas ruins principalmente de @RealMORTE rsrsrs

  18. JC Couto disse:

    Tem uma lenda da internet que diz que Djavan teve uma mulher chamada Maria, os dois teriam uma filha que se chamaria Margarida, mas sua mulher teve um problema na hora do parto e ele teria que optar por sua mulher ou por sua filha. Ele pediu ao médico que fizesse tudo que pudesse para salvar as duas, mas o destino foi duro e a mulher e a filha faleceram no parto.

    Abaldo por esses acontecimentos, ele fez a música “Flor de Liz”.

    Porém, como disse, não há fatos provando que esta estória é verdadeira.

    Abs,

    @jccoutobrasil

  19. Janaína disse:

    Desculpa, troquei o nome da música, não eh madalena, é flor de liz =]

  20. Catraca disse:

    Caraca, a mina morreu caindo da janela? #isabelanardonifeelings

  21. Janaína disse:

    Alías, a música madalena também é falando da morte.

  22. Mayara disse:

    É pra filha dele sim, que faleceu. Faz um tempo que isso foi “divulgado”.

  23. Victor disse:

    é pra filha do Edson Trindade sim…ta no livro do Tim Maia

  24. Janaína disse:

    Nunca foi nenhum segredo que o cara que escreveu essa musica foi pra filha pequena que morreu caindo da janela.

  25. Gustavo disse:

    Boato ou não, um fato é inegável: muito candango aí cantava essa música como se fosse algo romântico!
    ou ela pode ser tbm de um alguém que se separou da esposa advogada né?
    observe: Eu corro, fujo desta sombra
    Em sonho vejo este passado
    E na parede do meu quarto
    Ainda está o seu retrato
    o retrato é para fazer macumba!

  26. Nanny disse:

    Eu já escutei sobre essa música essa mesma história!
    Mas como vc descreveu,parece mesmo ser isso!
    Sem dúvida!

  27. samantha silva disse:

    A canção foi mesmo feita para a filha do autor que morreu depois de um acidente de carro.(que feio dona merte!)Mas adorei seu post *-*

  28. Caiubanja disse:

    ahahahah “eu corro fujo dessa sombra”
    huahuahuahauhauah
    Puxa vida eu capricho num dia deprê e tu estraga.
    Agora só rio.

  29. Rede Vitrola disse:

    Licença, “seo” Morte… mas eu tbm conheço essa história da filha do compositor… se é boato só vc dando uma olhadinha básica no seu excel…este

  30. Anderson disse:

    Essa canção, de fato, foi feita para a filha do autor. Que morreu quando era ainda uma criança.

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