EU TAMBÉM SOU FILHO DE DEUS!

08/08/2010

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Diferente do Dia das Mães, eu simplesmente DETESTO o dia dos Pais. Odeio esta data com cada osso do meu ser porque me faz lembrar a dura verdade de que meu pai me renega. Quem é o meu pai? Ora, não me façam cara de surpresa. Estou falando de DEUS, é claro. Se observarem bem temos vários traços parecidos e alguns poderes semelhantes. Sou apenas um pouco mais magro e não uso barba.

Apesar de Deus sempre ter escondido o nosso parentesco, de nunca atender meus telefonemas, de não comparecer aos almoços que faço, de nunca responder meus emails, nem nada, eu sempre tive esperança de que isto mudasse um dia. Durante um bom tempo eu achei, sinceramente, que talvez ele pudesse me assumir como seu filho e que viveríamos bem assim.

Sempre esperei pelo dia em que ele me convidasse para jogar bola, soltar uma pipa no parque, ou para jogar uma partida de War no Oriente Médio, enfim, sempre sonhei com o dia em que desfrutaríamos de uma tarde gostosa entre pai e filho. Mas isto nunca aconteceu. Se para vocês Deus é um ser onipresente, onipotente, e caladão, comigo, acreditem, é pior. Ele me trata como LIXO!

A minha ficha só foi cair de vez em um dia dos pais alguns anos atrás. Aproveitei a data singela e liguei para Ele na esperança de uma aproximação. Qual o quê… Quando Deus atendeu o telefone e ouviu a minha voz, fingiu que NEM ME CONHECIA. A coisa foi ainda mais cruel porque cheguei a ouvir, ao fundo da ligação, a reunião da “familiazinha” toda lá em volta Dele: Maria, o Cristo “queridinho”, Gabriel, São Pedro servindo vinho, todo mundo rindo, todos unidos e felizes. Todos… menos eu. Para piorar, ssim que eu disse “Pai?” Deus desligou o telefone na MINHA CARA me excluindo totalmente de Sua vida. Bati o telefone revoltado, saí correndo pro meu quarto, e chorei a tarde toda sobre a cama ouvindo Carpenters.

Foi depois desse dia que desencanei e decidi fazer análise. Meu primeiro analista foi taxativo: me disse para esquecer essa história de que Deus é meu pai. O segundo analista disse o mesmo. O terceiro disse exatamente o contrário, mas só depois que eu falei que matei os dois primeiros.

O quarto analista então me receitou uns anti-depressivos e me recomendou que corresse atrás dos meus sonhos, que eu resolvesse esse assunto de vez de alguma forma. Decidi então tomar uma atitude radical: pedir um exame de DNA. Se Deus não queria me assumir como filho na boa, então iria me assumir na marra.

O problema é que eu não tinha grana pra pagar um exame, apelei para tudo quanto é lugar, mas o único que quis me bancar, por incrível que pareça, foi o programa do RATINHO. Enviei uma carta para a produção e meses depois me ligaram dando sinal positivo. Confesso que eu já havia até esquecido da carta quando a van do SBT parou na frente da minha casa.

Eles me levaram lá pros estúdios do Anhanguera e me deixaram numa salinha de espera cheio de petisquinhos, um buffet de quinta categoria, muito pior do que o da Ana Maria Braga, que eu conheço também quando fui ao programa dela passar uma receita, mas isso eu conto outra hora. Naquele dia, antes de mim, já haviam passado pelo palco uma briga de casal de anões, um homem que se apaixonou por uma égua, e um estivador que dizia conseguir comer uma dúzia de bananas em um minuto. Gostei muito do nível do programa.

Quando o Ratinho me chamou para entrar em cena, eu me sentei naquelas cadeirinhas no meio do palco, e ele me pediu para contar minha história. E eu comecei: “Olha, seu Ratinho, o que me trouxe aqui foi uma coisa muito chata que aconteceu comigo…” Contei o lance dos telefonemas, do trabalho, da falta de reconhecimento. Contei TU-DO.

A platéia ia reagindo com “ohs” e “ahs”, o Ratinho fazia uma pergunta ou outra, o pessoal da platéia também, mas só me dei conta de que não estava sendo levado a sério quando o Xaropinho fez uma piadinha dizendo         que eu só usava foice porque gostava de pegar no comprido. Comecei a ficar preocupado com o rumo do programa, mas já era tarde. Mal sabia eu que o pior estava por vir.

No clímax do quadro, o Ratinho anuncia a grande surpresa da noite. Ele chama o Deus EM PESSOA para participar do quadro. Rufou os tambores, eu me animei, me enchi de esperanças, meus olhos lacrimejaram, quando então, vocês não vão acreditar, me entra o INRI CRISTO no palco! Vocês não imaginam como aquilo me irritou. Eu disse que aquele programa era uma palhaçada, que aquele cara não era meu pai. Então Inri Cristo disse, na maior cara de pau, que segundo a santíssima trindade ele era Deus, SIM! Depois ele abriu os braços e disse “vem cá, filhinho”.

Aquilo me emputeceu DE VEZ e parti pra cima dele, saí no braço com o cara. A gente rolou no palco, pra cima das câmeras, a produção do programa veio nos separar, quebramos umas duas cadeiras um no outro. A platéia foi ao delírio. O Ratinho só sabia dizer “opa, opa, opa, violência aqui não”. O Xaropinho gritava “Pô-rrada! Pô-rrada!”. Um vexame.

Fui expulso aos pontapés pelos fundos dos estúdio. O programa, não sei por quê, nunca foi ao ar. Não rendeu nem uma notinha no jornal, nada. Hoje eu acho isso tudo muito engraçado. Consegui com um câmera de lá uma cópia em VHS do episódio. Assim que eu passar pra MPG eu posto no YouTube para vocês verem.


LETRAS MORTAS 4

02/08/2010

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Quando a idade corroer-te além do aceitável
além, muito além, de todo sentido humano
perceberás que a vida em nada é admirável
e que o mundo não passa de divino engano

Está na ruína do teu corpo o único sentido
No teu coração estanque a triste resposta
No ocaso da mente o teu paraíso perdido
E na crença de uma alma tua última aposta

Quando o tempo levar tua alegria de viver,
Talvez seja tempo de não viveres mais
Dias se arrastarão da manhã ao anoitecer

Noites se consumirão na tua falta de paz
E não pense que havia algo mais a perder:
Era tua última chance. Outra terás jamais.

MORTE


CLÁSSICOS DAS ÚLTIMAS PALAVRAS – 7

22/06/2010

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“ATENÇÃO, PASSAGEIROS, VAMOS ATERRISSAR”

Podem perguntar a qualquer piloto que eu ainda não levei: os dois momentos mais arriscados de um vôo são a decolagem e a aterrissagem. Geralmente acompanho TODOS os vôos de muito perto e posso confirmar: o negócio é brabo mesmo. Se não fosse o meu trabalho JAMAIS entraria em um avião. Sempre que acompanho uma decolagem e uma aterrisagem acho que alguém como eu virá ME buscar.

Pousos mal-sucedidos são um espetáculo da engenharia humana. Nada impressiona mais que a descida de um avião que começa numa pista de pouso e termina dentro de um supermercado ou um posto de gasolina. Por isto é que quando ouço as simpáticas últimas palavras “Atenção, passageiros, vamos aterrissar” até mesmo eu, a Morte, sente um friozinho na espinha.

Obviamente que há variações como “Atenção, senhores passageiros, apertem os cintos, e atentem para os procedimentos de aterrissagem” . Mas se houvesse uma forma mais completa, estaria seria “Atenção, senhores passageiros, vou tentar depositar 200 toneladas de metal, combustível, e carne humana, à velocidade de 500km/h sobre uma pista de asfalto e seja o que Deus quiser”, mas acho que isso não tranquilizaria muito vocês.

Ninguém poderia imaginar, mas quando Santos Dumont fez o 14 Bis decolar e pousar naquele fatídico ano de 1906, fiquei muito puto. Aquele inventorzinho nanico e afetado conseguiu estragar um dos maiores prazeres da minha vida que era ver vocês tentarem voar (e fracassarem, claro). Vocês tem os seus “Friends”, “Seinfeld”, “Grande Família”, eu não. Para mim nada superou em humor até hoje a história da aviação. Todos os anos eu levava pelo menos uns 300 de vocês em engenhocas cada vez mais ridículas em cenas de empacotamento hilárias! Que saudade…

Porém, em 1908, fui fazer um serviço de rotina buscando um tenente do exército americano que havia quebrado pelo menos 80% dos ossos do corpo. O acidente se deu numa máquina esquisita que eu nunca tinha visto antes. “Aquilo é um avião motorizado de asas fixas”, disse-me ele, “o primeiro modelo da história”. O sorriso então voltou novamente à minha face: o futuro estava nos acidentes aéreos, óbvio! Como eu não havia pensado nisso antes? Havia esperança. Com esta experiência aprendi que quando a vida fecha uma porta, uma janela se abre em algum lugar. E se for a janela de um avião que se abra a dez mil metros de altura, melhor ainda.

Talvez a a forma mais tranquila de se dizer “Atenção, senhores passageiros, vamos aterrissar” fosse a mais curta e mais simples: “Atenção, senhores passageiros, REZEM!”. Mas como mais da metade de vocês já fazem isso automaticamente, talvez, de fato, não seja preciso dizer.

Só sei que todas as vezes que ouço estas últimas palavras, eu saio da cabine de comando e vou para área dos tripulantes. Ali eu estico as pernas, faço um alongamento, um aquecimento, tomo um café. Porque, nunca se sabe, um serviço pode estourar a qualquer momento. Literalmente.

Ah, sim, aproveitando: fiquem tranquilos quando vocês não encontrarem a caixa-preta de um avião. Quando isso acontece é porque eu levei a fita pra estudar em casa, para melhorar minha performance nas próximas. Afinal, depois de tanto esforço pra se matarem, vocês merecem o melhor de mim.

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Próximo Clássicos das Últimas Palavras: “TEM CERTEZA QUE A CHAVE GERAL ESTÁ DESLIGADA?”


LETRAS MORTAS 3

20/06/2010

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Quando o último ateu caminhar sobre a Terra
e eu vier buscá-lo com um sorriso no rosto
não será apenas uma vida que se encerra
mas a vida que levarei com o maior gosto!

Irei lhe perguntar em que crença se aferra
já que a vida lhe é um acaso por suposto.
Como um cordeiro imolado que não berra
a quem seu orgulho apelará a contragosto?

Talvez ainda eu ouça uma defesa da ciência
do homem, da lógica, da civilização,
da piada mais rasa à arte mais profunda

Ou talvez eu presencie uma breve consciência
que no último instante entenda toda a criação
e não consiga esconder a sua cara de bunda

MORTE


MORUMBI 2012!

18/06/2010

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MAIS UM MINUTO GARANTIDO

Aos poucos vou marcando presença na Copa. Graças ao Saramago, no jogo de Portugal houve um minuto de silêncio antes da bola rolar. Mais um que eu emplaco. Tenho pelo menos mais 20 dias para bater meu recorde.

SONORO ENGANO

Na semana passada disse aqui que já havia levado Patrick Mbotu, o inventor das vuvuzelas. Hoje descobri que me enganei. Patrick apenas COMERCIALIZOU em larga escala as infernais trombetinhas. O verdadeiro inventor das vuvuzelas é Neil Van Schalkwyk, que admite estar arrependido. Está perdoado, Neil. Mas assim que eu atualizar a lista de endereços do meu Ipad vamos ter uma conversa…

MATURIDADE

Gente, vamos ter mais maturidade e parar de pedir a cabeça do Dunga. Eu sei que desejar a morte do técnico da seleção é um esporte à parte, mas isso SEMPRE foi assim, não vamos esquecer. O povo já me pediu pra trucidar o Feola, enforcar o João Saldanha, eviscerar o Zagallo, comer o fígado do Telê, acabar com a raça do Lazaroni, degolar o Felipão, torturar o Parreira, afogar o Claudio Coutinho… Pensando bem, este eu afoguei mesmo. Jamais o perdoei por não ter levado o Marinho em 78. FDP!

COSA BOSTRA
Se eu fosse da Máfia daria uma força pra seleção italiana. Mas faria parecer um acidente.

BANCO BEM SERVIDO

O melhor banco desta Copa não está na África do Sul, mas em Bagdá: levei 26 num ataque a um banco estatal neste fim de semana. Golaço!

DOBRADINHA 1

Toda vez que vejo Maradona me bate o arrependimento de não tê-lo levado em uma overdose de cocaína em 1994. Só não o fiz porque havia acabado de levar o Ayrton Senna e achei que seria demais levar dois ídolos esportivos no mesmo ano. Odeio dobradinhas.

DOBRADINHA 2

Cruzei ontem aqui na África do Sul com o Bispo Desmond Tutu, um dos heróis da luta contra o Apartheid. Sinceramente achei que já o tivesse levado, cheguei a empunhar a foice para fazer o serviço, mas desisti. Levar dois prêmios Nobel durante uma Copa ia parecer que eu estou querendo chamar a atenção. Segura a onda, rapá!

MORUMBI FORA DA COPA 2014, MAS…

…já está garantido como logradouro de peixes em 2012. Sim, são-paulinos, podem comemorar! Apesar da insistência do Rio de Janeiro pelo Maracanã, escolhi o estádio paulista como o primeiro a ir pro saco quando o Brasil deslizar para dentro do Atlântico. Como o Juvenal Juvêncio já vive na maior água, nada mais adequado.

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A Morte aprecia esportes com morte súbita, mas só se for a dos jogadores.


O MELHOR ATAQUE ATÉ AGORA

13/06/2010

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GRUPO DA MORTE O CACETE!

Alguns comentaristas andaram espalhando por aí que o grupo A seria o verdadeiro “Grupo da Morte”. Mais uma vez digo que não tenho nada a ver com esse grupinho de merda. Depois dos jogos de sexta então, fico ainda mais puto com isso. México, África do Sul, Uruguai e França não merecem ser associados ao meu nome. Já consultei meus advogados. Estão avisados.

LEI DE MURPHY 1

Todo mundo sabe que a África é pródiga em conflitos étnicos. Por isto comemorei muito quando me falaram que ia rolar uma Copa por aqui, pois finalmente eu teria a oportunidade única de unir o útil ao agradável. Mas não é que justo agora, no início da competição, me explode um massacre étnico no QUIRGUISTÃO!? Um país que fica ao norte da puta-que-o-pariu da CHINA!? Conclusão: tive que passar o fim de semana lá e perdi quase todos os jogos. Não é justo. Muito triste ver os ingressos sobrando no bolso da minha túnica.

LEI DE MURPHY 2

Impressionante como essas coisas acontecem comigo. Eu tinha acabado de me sentar para ver o jogo da Alemanha quando fui chamado para um serviço. Era rápido, logo ali no Quênia, onde uma explosão me fez levar três de vocês. Fui num pé, voltei no outro, deixando uns 80 feridos pra buscar mais tarde. Mas quando sentei na minha cadeira já estava QUATRO a zero para os alemães e depois disso não fizeram MAIS NADA. Na boa: existe alguém mais sem sorte do que eu?

ENFIM, UM BOM ATAQUE!

Finalmente um ataque que funcionou. Não, não estou falando da Alemanha, mas sim do ataque ao Banco Central de Bagdá. Notável: rápido, surpreendente, eficaz, sem chance para o adversário. Estou com 15 corpos de vantagem. Mas posso aumentar esse número em algumas horas.

PULO RÁPIDO

Na sexta-feira fiquei sabendo que o maior bungee jumping do mundo se encontra aqui na África do Sul, na Blaukrans Bridge. Fiquei curiosíssimo pra conhecer. Mas quando me disseram que nunca houve acidentes e ninguém morreu por lá, perdi o tesão na hora. Desperdício é uma coisa que me broxa.

GALVÃO PERMANECE

Apesar dos inúmeros pedidos no final de semana, Galvão Bueno permanecerá encarnado. E o motivo é simples: pretendo contratá-lo para narrar o Fim do Mundo 2012. Nada vai me tirar o prazer de ouvi-lo berrar “Já ééééééééééééééra o Brasil!”.

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Morte não gosta da seção “Que fim levou?” do Milton Neves porque acha que dedurar serviço atrasado dos outros é anti-ético.


PACTO É SINISTRO

11/06/2010

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Por mais paradoxal que isso possa parecer, meu contato com o pessoal do além é mínimo. A minha agenda é tão lotada que nunca me sobra tempo pra fazer uma social decente. Vejo Deus e o Diabo muito raramente e quando a gente se encontra é só para falar de assunto de trabalho. O capeta até me convida para um drink no inferno de vez em quando, mas sempre dou uma desculpa esfarrapada porque não gosto que me vejam muito na companhia dele. É meio queimação. Ainda mais no inferno.

No entanto, volta e meia nossos caminhos se cruzam. Não há como. Quando pintam umas complicações entre vocês, não tem jeito, somos obrigados a nos falar. Como uma vez em que fui buscar um bandidinho mequetrefe no Complexo do Alemão. O cara havia levado acidentalmente uns 138 tiros. Sei que isto vai contra a idéia de acidente, mas eu avisei que era no COMPLEXO DO ALEMÃO. Cheguei ao local e a alma do bandido saiu do corpo zunindo pra cima de mim, cheio de marra.

— Você não vai me levar! Eu não vou morrer.

Como isso me cansa. Mas ainda assim tentei ser delicado.

— Escuta, ô imbecil: se você está me vendo é porque já foi pro saco.

— Pode falar o que quiser, magrelo. Eu tenho o corpo fechado.

— Jura? Então como é que tem um pedaço do seu fígado no tapete?

— Isso é o de menos. Eu tenho um acerto aí. Com O CARA.

— Que cara? Tem dois que mandam no pedaço.

— Eu tenho um pacto com o DIABO!

— Ah é? E onde está ele agora que não me avisou nada?

No mesmo instante em que eu disse isso, meu celular tocou o seu “Hello Moto!”. Gelei. Olhei no visor e lá estava escrito “CAPETA”.O sujeitinho marrento me deu um sorriso cínico. Soltei um “merda” bem baixinho e me afastei para atender. Lúcifer estava preocupado do outro lado da linha.

— Solta o cara!

— Não dá! — eu disse — Se você tivesse falado antes.

— Ele fez um serviço grande pra mim. Não posso furar.

— Não tem jeito. O corpo está inutilizável.

— Muito?

— Digamos que é uma empada com 138 azeitonas.

— Merda! Espera só um minuto que eu já falo com você.

E desligou. Eu e a alma do bandido ficamos sozinhos, um de cada lado, meio sem assunto, num silêncio meio constrangedor. Mas o cara era marrento demais e resolveu mexer comigo.

— Tomou, saco de osso?! Não falei que eu tinha um acerto com O CARA? Me dei bem!

Comecei a rir. A rir não: gargalhar. Ele ficou puto.

— Tá rindo do quê?

— Você não sabe que não adianta fazer pacto com o demônio, ô panaca? Isso nunca dá certo. NUNCA! Ninguém se dá bem com ele.

— Eu não acredito nisso.

— É sério, faz parte do esquema. Todo pacto com o diabo tem alguma pegadinha irônica. É sempre assim: se ele promete a vida eterna, você pega prisão perpétua. Se você fica milionário, ele te manda pra uma ilha deserta. Se ele lhe promete talento pra ser um gênio da guitarra, você morrerá engasgado com o próprio vômito num quarto de hotel. Não adianta, mané: pacto com o diabo é sempre ROUBADA!

— Fica na tua, ô motoboy do além. Tá tudo dentro do combinado: quem mandou me apagar agora acha que eu tô morto. Só que eu vou continuar VIVO. E mais: vou sair dessa montado na bufunfa! Escondi uma grana boa de uma parada aí. Vou pegar o dinheiro e sumir pro Nordeste. Vou passar o resto da vida só comendo camarão e pegando as mulherzinha lá.

— Se é o que você acha…

Meu celular tocou de volta.

— É o seguinte — disse o pé-fendido pelo telefone — conversei com o Criador e Ele confirmou que não dá pra ressuscitar esse idiota, disse que até milagre tem limite. Mas como eu prometi fechar o corpo do cara preciso deixar ele vivo de algum jeito.

— Como?! O que sobrou dele não serve nem para fazer autópsia.

— O plano é o seguinte: tem um rapaz de 18 anos se suicidando AGORA a três barracos de onde vocês estão. A idéia é você pegar a alma do suicida e sumir com ela. Aí o outro que está aí do seu lado reencarna no corpo bom. Diz pra ele que é pegar ou largar.

Achei o plano uma loucura. Baldeação de alma nunca dá certo. Mas o marrentinho topou, pois percebeu que não tinha muita escolha, e fomos andando até o barraco do suicida que ficava realmente muito próximo dali.

Chegando lá nos deparamos com um corpo humano em EXCELENTE estado deitado numa cama em um bem arrumado quarto. Estranhei tudo. O rapaz que havia acabado de se matar tomando comprimidos era um moreno alto, bonito, de vidrados olhos verdes, malhado, um ex-ator de cinema que havia feito uma ponta no filme “Cidade de Deus”. Achei mais esquisito ainda. O sujeitinho marrento se animou.

— Este vai ser o meu novo corpo?! Urrú! Beleza! Me dei bem! Tchau pra você, magrelo! Fui!

Ele então encarnou no corpo caído e saiu batido pro hospital mais próximo para fazer uma lavagem estomacal.

Sem entender nada, perguntei à alma do suicida, que estava sentado quieto ali por perto, se ele se importava com aquilo. O desanimado ectoplasma deu de ombros. Não estava nem aí para nada. Perguntei, curioso, por que alguém tão jovem e cheio de vida se mataria daquele jeito. Ele relutou em dizer, até que cedeu:

— Eu me matei por desespero, tá legal? Eu tinha feito uma operação de troca de sexo que deu muito errado: fiquei sem o pau e ainda por cima não tinha ganhado uma vagina.

Suspirei aliviado. O velho Lu continuava o mesmo sacana de sempre.


CANÇÕES DO ALÉM – FLORES EM VOCÊ

11/06/2010

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Algumas coisas são tão óbvias que dá até preguiça de comentar. Fúnebre da primeira à última linha, “Flores em você” foi utilizada até em abertura de novela, e apesar do baixo astral TOTAL, talvez seja o maior sucesso do grupo Ira!. Porém somente sendo muito lerdo pra não perceber que esta canção não passa de uma reflexão à beira do caixão durante um velório e que não há nada de romântico nisso.

A letra é bastante curta e já começa com o maior lugar-comum dos velórios: as lembranças. Mas para evitar deixar a canção assustadora demais, Edgard Scandurra omitiu a presença do defunto até o final e centrou-se apenas na viagem mental do personagem que a narra.

De todo o meu passado

Boas e más recordações

O personagem frente a frente ao presunto tem boas e más recordações do seu passado. A morte o fez pensar na vida. Nada mais que isso.

Quero viver meu presente

e lembrar tudo depois

nessa vida passageira

Sempre a mesma lenga-lenga que se ouve quando alguém bate as botas. Reflexão típica quando vemos alguém empacotar do nada. Todos vocês dizem que o importante é VIVER A VIDA, e coisa e tal, mas se esquecem disso e voltam a viver suas vidas miseráveis assim que deixam o cemitério pra trás. Em tempo: “vida passageira” é PLEONASMO, ok? Para vocês pode ser figura de linguagem. Para mim é vício.


Eu sou eu, você é você,

isso é o que mais me agrada

Reparem: o que mais agrada ao sujeito é que “eu sou eu” e que “você é você”. Claro, porque o “você” está MORTO! Ele quis dizer que prefere estar vivo a estar no caixão. Trata-se apenas de uma forma mais sutil de dizer “ANTES VOCÊ DO QUE EU, MERMÃO!”. Mais um pouco e o sujeito da canção faz uma banana com os braços pro defunto. Não é um verso elegante.

Isso é o que me faz dizer

Que vejo flores em você!

O verso é auto-explicativo e ilumina toda a canção. Não existem muitos outros momentos na vida tão certos em que se podem ver flores nas pessoas. Depois de tudo o que a música disse antes fica difícil acreditar que este cara esteja falando de uma estampa de um vestido de viscose.

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A canção termina com um portentoso violoncelo se sobrepujando e se destacando do todo. Não fosse o andamento acelerado, o clima seria de enterro total, e é mais uma prova de que vocês curtem a minha presença mais do que gostam de admitir. Não que isso faça alguma diferença para mim. Afinal, eu acho mais divertido levá-los quando vocês NÃO GOSTAM de mim.


BAFANA BAFANA ABAFANDO

10/06/2010

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DANDO CABO NA CIDADE DO CABO

Hoje estive em Cape Town onde o agito não pára. Para vocês terem uma idéia do clima, um senhor de 76 anos faleceu de derrame em um dos hospitais da cidade. Quando eu lhe falei “Vambora, ô bacana” ele entendeu “Bafana” e a alma saiu do corpo pulando com uma camisa da seleção da África do Sul gritando “Bafana, bafana!” toda serelepe. A alegria é contagiante!

OBRIGADO, STEVE JOBS

Recebi esta manhã um IPAD para fazer minhas matérias pro “Matando a Bola”. Foi um presente do meu amigo Steve Jobs pelo favor de não tê-lo levado alguns anos atrás em decorrência de um câncer que teria empacotado até o Niemeyer. Desde então o nosso acordo é: enquanto ele conseguir fazer a Apple inovar, ele sobrevive. Acho uma troca justa.

Estou adorando o aparelho. Nos seus 64 Gb couberam todos os arquivos e fichas com nomes de todo mundo que eu já levei e ainda vou levar. Tem Wi-Fi e 3G, um eterno pedido meu porque o inferno é o como o Brasil, a gente não encontra um Wi-Fi decente em canto algum e 3G pega bem lá (ironicamente só o da VIVO). Já no céu a tecnologia 4G já está instalada há muito. É o paraíso!

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A merda é que não tem Word. Mas posso conversar com o Bill Gates para resolver isto logo. Se funcionou com o Office para Mac, pode funcionar para o Ipad também. Não custa ameaçar… quer dizer: tentar!

SERVIÇO DE PRETÓRIA

Mesmo com credenciais do além é difícil conseguir um serviço decente neste país. Fui barrado duas vezes ao tentar entrar no estádio de Pretória para fazer umas fotos para o “Diário da Foice”. E olha que eu expliquei duas vezes que eu era a Morte, e coisa e tal, mas não adiantou. Tentei dar uma graninha por fora dizendo “Libera a entrada aí, ô bacana”. Mas o cara entendeu “Bafana” de novo e saiu pulando todo animadinho gritando o nome da seleção da África do Sul. E pior: levou a minha grana sem me deixar entrar.

SOWETO É PIOR DO QUE COMPLEXO DO ALEMÃO

Visitei uma das bairros mais famosos do mundo, Soweto, que muita gente também conhece por favela, mas isso é propaganda enganosa. Favela sem traficante, sem tiroteio, e bala perdida a cada cinco minutos para mim não é favela. Eu teria que vender biscoitos Globo para sobreviver lá. Se continuar neste caminho vai virar bairro nobre. Escrevam o que eu tô falando.

SIMON NA RODA

Cruzei ontem por acaso com Carlos Eugênio Simon que já está em Rustemburgo. Passou pertinho de mim. Se ele soubesse o número de pedidos que eu recebo diariamente para levá-lo teria mudado de calçada. Ele vai apitar o primeiro jogo da Inglaterra. A sorte dele é que meu inglês não passa do “The body is on the table”.

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Um funcionário da Copa disse que Morte só conseguiria entrada para a abertura passando por cima do cadáver dele. Pelo menos foi a última coisa que o funcionário disse…


ENCHENDO A CAVEIRA – 7

09/06/2010

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Totalmente absorvido pelo início das obras do Fim do Mundo 2012, a Morte tem atrasado os seus compromissos. Inclusive teve que desligar o celular para evitar ligações constantes de Mussum cobrando o Enchendo a Caveira desta semana. Quando ficou claro que a caveira que o Mussum queria era encher era a DELE mesmo, Morte relaxou e achou tempo para responder as perguntas de vocês. Muitas delas, claro, sobre 2012. Enviem perguntas pelo Twitter @realmorte ou para o email realmorte@gmail.com

                                                                                    

1 – Tá com preguiça de levar o José Alencar ou é incompetência mesmo? @alexkunze

Gente, calma. Os preparativos pra 2012 vão me fazer atrasar a ida de uma meia dúzia. Eu sou um só! Agradeço a compreensão.

2 – Teve um vózinha aqui no trampo hoje que disse estar com medo de 2012… vc não tem dó dessas velhinhas?! @tatiepedalo 

Tenho. Por isso diga para essa vózinha relaxar porque ela NÃO VAI ver 2012.

3 – Está havendo muito pressão sobre 2012 não é mesmo? Não seria melhor arquivar o projeto até 2112? @DrykaCandyDF

Tá doida, mulher? Já mandei confeccionar 500 camisetas com a logomarca “2012” para o pessoal do camarote no Everest. Até adiaria se houvesse um bom motivo, mas não posso perder esse material. Já foi.

4 - @RealMORTE 2012 será o seu último e mais cansativo trabalho, né?@roberto221133 

Na verdade tenho só mais um planetinha pra dar cabo em Andrômeda. Mas é coisa rápida, três palito. Depois tô livre pra tomar um chopp com o Criador e o Mussum.

5 – Morte explica isso: “Praga da Dança de 1518”: numerosas pessoas dançaram por dias em Estrasburgo até caírem mortas! @robelisario 

A explicação é simples: eu achei que aquilo fosse uma MICARETA e acabei com ela antes que a moda pegasse. Se eu não tivesse tomado tanto esporro do Criador na primeira, eu faria isso com TODAS!

6 – Aliás, o que deu errado com a Hebe Camargo?@Trocadilllo 

Não gosto de mexer com quem tem contrato longo com o Silvio Santos. Quando atendo o telefone e ouço um “Ma…oeeee!” me dá até bolha. Só levo em último caso.

7 – Afinal, você trabalha pra quem? @OCriador  ou @DiaboLucifer? @katyrs

É o seguinte: pra Deus eu trabalho por contrato, para o Diabo eu faço free-lancer. O primeiro paga bem, mas há pouquíssimas encomendas para o céu. Tenho que fazer um bico por fora pra me garantir. Aí entra o Diabo, que é um mão-de-vaca, mas como o volume de serviço para o inferno é MUITO ALTO, então acabo até tirando mais por lá. No final sai elas por elas.

8 – Matar por legítima defesa é pecado? @MortadelaMofada 

Não sei se é pecado, só sei que é um SACO. Eu odeio quando fulano parte pra matar sicrano e tem uma reviravolta no meio da briga: o sicrano é que mata o fulano. Ferra todo o meu esquema, tenho que mudar toda a papelada de transferência de uma hora pra outra. É chato. Por isso que eu digo sempre: não reajam. Relaxem e morram. É tão mais fácil…

9 – @RealMORTE Já passou pela sua cabeça abrir uma franquia?@bruxinhabeth 

Já tive uma franquia, mas não deu certo. Abri três lojas chamada DEATH’S EXPRESS: uma no Barra Shopping, no Rio, outra no Shopping Center Norte em São Paulo, e uma no Caraguá Praia Shopping em Caraguatatuba. A gente oferecia mortes-express na loja ou por encomenda. Garantíamos serviços de aviso à família, traslado de corpo, possuíamos mais de 500 modelos de bilhetes de suicídio, assassinos de aluguel 24 horas, acidentes à la carte, um puta negócio. Gastei os tubos em comercial de rádio e TV. Cheguei a ter um serviço a domicílio feito por motoboys: eles iam até os clientes com umas motos negras com farol em forma de foice, super-charmoso. Eles pegavam as almas em casa, sem dor de cabeça pro cliente. Mas não foi pra frente. Descobri que a maioria de vocês ainda tem apreço pela vida e fechei em três tempos. Perdi tudo o que eu tinha na poupança nessa merda, nem gosto de lembrar. Até hoje tá voltando cheque meu dessa época.

10 - Ando sentindo umas fisgadas no peito e falta de ar ao respirar. Me faça um favor? Vá cantar em outra freguesia! @prisvares

Ok, deixa eu só pegar o violão… Safena é coisa pra se guardar No lado esquerdo do peito ♫  Perto do coração…

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A MORTE CURTE O TREMENDÃO, MAS PREFERE UM TREMIDÃO COMO OS DO CHILE E HAITI

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ENCHENDO A CAVEIRA é uma seção semanal do site
BEBIDA LIBERADA http://bebidaliberada.com.br/


A JABULANI É CULTURA

08/06/2010

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JOAHNNESBURGO É UÓ

Cheguei à Joahnnesburgo e estou achando tudo muito parado. Não chega a ser Cleveland, mas também não é uma Bagdá ou Rio de Janeiro onde tropeço em trabalho. Se a Copa inteira for assim, vou dar uma esticada em Darfur. Afinal, vir ao continente africano e não ver um massacre étnico é como ir a Roma e não ver o Papa.

BARRA-BRAVAS BARRADOS

Só hoje tive a confirmação de que os Barra-Bravas, os hooligans argentinos, realmente foram barrados e não virão. Sinceramente, fiquei desanimado. Terei menos serviço sem eles aqui. Tô vendo que essa viagem vai ser um tédio.

VUVUZELA É INFERNAL!

Liguei para o meu colega, o Capeta, só pra perguntar se foi ele quem inventou a vuvuzela. Ele disse que sim, mas que o projeto lhe fora roubado. Perguntei se ele queria que eu fosse atrás do filho da puta que fez isso e o arrastasse para o inferno. Ele me lembrou que eu já tinha feito isso. Eu e minha cabeça…

A BOLA JABULANI

Sabe quando o universo conspira para o bem? Hoje dois sul-africanos tentaram assaltar um shopping, foram mortos a tiros, e fui buscá-los. O legal é que eles empacotaram próximos a uma loja de esportes! Aproveitei o momento para ver a JABULANI, a bola oficial de perto. Nada como unir o agradável ao útil.

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Fazendo uma análise bastante técnica, constatei que a reclamação dos jogadores é uma FRESCURA da porra! A bola de uma Copa deve representar a cultura do país que a sedia e a Jabulani é apenas isso, uma legítima bola sul-africana.

Alguns goleiros dizem que ela é difícil de apanhar, pois é rápida e muda de trajetória facilmente. Concordo, mas isto tem relação com a cultura local. Quem já viu um sul-africano fugindo de um leopardo sabe muito bem como esses caras são rápidos e difíceis de apanhar também. Assim como a bola jabulani, os africanos correm MUITO e mudam de trajetória velozmente como nenhum outro povo do planeta.

Nada mais representativo, portanto, que a bola da Copa seja assim também. Jogador brasileiro reclama demais.

APARTHEID DISFARÇADO

Já tomei duas revistas ao sair do hotel. Vocês nem imaginam, mas aqui sou discriminado pelos dois lados: como não tenho pele, os dois lados, brancos e negros, me olham esquisito. Um problema que terei que contornar por aqui.

DESARMADO

Nem comentei, mas não pude embarcar no avião com a minha foice por ser objeto perfurante. Ela foi no compartimento de bagagem e se desviou junto com as minhas roupas numa escala em Luanda. Estou quase dando um pulo lá pessoalmente. Aproveito, levo uma meia-dúzia em minas terrestres e volto rápido antes da abertura. Se eu não for chamado a Gaza hoje, faço isso.

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A Morte mais tarde irá para a Cidade do Cabo porque pretende dar um de alguém.


CLÁSSICOS DAS ÚLTIMAS PALAVRAS – 6

08/06/2010

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“APROVEITA QUE O SINAL ESTÁ AMARELO!”

Os acidentes de trânsito revelaram-se eventos tão cheios de possibilidades e variações que chega a ser difícil escolher o melhor tipo e o mais funcional. Afinal quase todos me garantem um serviço rápido e sem complicações. Mas se há um tipo que me diverte, confesso, são aquelas cacetadas nas quais vocês dizem, pouco antes de virarem parte das ferragens, a fatal frase “Aproveita que o sinal está amarelo!”, mais um clássico moderno das últimas palavras.

Este tipo de acidente nasceu do maquiavelismo inerente ao ser humano. E por “maquiavelismo inerente” entendam “filha-da-putice da grossa”. Porque o que poucos de vocês sabem é que antigamente os semáforos tinham apenas duas fases, o verde e o vermelho. No verde o motorista avançava, no vermelho ele freava. Nada mais simples do que isso. Funcionava muito bem e o número de acidentes era baixíssimo. Eu tinha tão pouco serviço em acidentes de trânsito nessa época que investia o meu tempo em outras áreas, como Guerras Mundiais, por exemplo.

Ocorreu que a indústria automobilística entrou em crise em determinado período dos anos 20. Os motivos principais eram a durabilidade dos carros e a satisfação dos consumidores em ter apenas um veículo para a vida toda. Desesperada, e precisando aumentar suas vendas de qualquer maneira, a indústria teve a brilhante idéia de fazer os consumidores estragarem seus veículos de forma mais rápida chocando-os uns contra os outros. As grandes montadoras fizeram então um acordo com as prefeituras das cidades, que logo mobilizaram seus engenheiros de tráfego, e criaram o nefasto sinal AMARELO. O que era certeza, então, tornou-se dúvida .

Sim, é para isso que o sinal amarelo serve: deixá-los em dúvida. A frase “Aproveita que o sinal está amarelo!” é fruto da titubeada de alguém, normalmente um braço-duro dos infernos que jamais deveria conduzir um carro (89% de vocês, em média). Ela tanto pode ser dita por quem está ao lado do motorista, apressando alguém meio lerdo, como apenas atravessar rapidamente os pensamentos de quem está ao volante. Em ambos os casos, ela é a última coisa a passar pela cabeça da pessoa. Ou a penúltima, caso o carro não tenha air-bag.

Mas não vejam isso como uma crítica à indústria automotiva, porque, pessoalmente, sou muito grato a ela. Devo à invenção do automóvel os melhores momentos da minha vida profissional no século XX. Assim que Ford inaugurou a primeira linha de montagem em série da história, eu inaugurei a primeira linha de desmontagem em série de vocês. A indústria automobilística, por mais que se considere uma transformadora de matéria-prima em produtos, no fundo não passa de uma mera fornecedora de matéria-prima para mim. Não tenho do que reclamar. Já vocês, me desculpem a sinceridade, não passa de uns manés nas mãos dessa gente.

Portanto quando alguém disser a você as palavras “Aproveita que o sinal está amarelo!” freie caso queira continuar vivendo. Nunca ache que vai dar tempo, porque não dá. Quando acontece de funcionar é porque vocês me pegaram muito ocupado com alguma outra questão em Gaza, ou no Afeganistão, ou em outro lugar assim, e por isso deixei passar batido. Mas se eu estiver perto, perdoem o trocadilho, não deixo passar a batida.

Ao avançarem um semáforo com a luz central acesa saibam que a única coisa amarela certa nesta história será o sorriso de vocês quando me encontrarem. Já eu me aproximarei com o meu mais alvo arreganhar de dentes e direi, como sempre, “BEM FEITO!”.

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Próximo Clássicos das Últimas Palavras: “ATENÇÃO, SENHORES PASSAGEIROS, VAMOS ATERRISSAR”


CANÇÕES DO ALÉM – O PORTÃO

03/06/2010

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A música brasileira me ignora. O cagaço dos músicos deste país diante do destino certo é tão grande que dá pra contar nos dedos da mão de um presidente ex-metalúrgico as canções que tem a morte como tema principal. “O Portão”, de Roberto Carlos, é exceção à regra. Mesmo sendo uma das músicas mais populares do Rei, pouquíssimos fãs captaram o sentido real de sua letra que narra, muito claramente, uma jornada sobrenatural.

A começar pelo primeiro verso de onde foi retirado o nome da obra.

Eu cheguei em frente ao portão

O estranhamento já começa aqui. Por que, afinal, a música se chama “O Portão” quando o mais correto seria batizá-la de “Eu voltei”, “A Volta”, “Retorno”, “Tô de novo no pedaço!”ou algo do tipo? A resposta é tão óbvia que chega a ser insultante. Roberto sabia disso e deixou uma pista já no título. O personagem principal desta música não voltou para casa, ele apenas ACHA que voltou, devido ao mais prosaico dos motivos: ele está MORTO! Sim, trata-se de uma alma penada. O verso seguinte já reforça esta triste constatação.

Meu cachorro me sorriu latindo

Primeiro, o óbvio: a menos que este seja um dono desnaturado, algo que Roberto Carlos não aceitaria em uma canção sua, para mim está claro que este cara foi para um lugar onde ele NÃO PODERIA levar seu cachorro. Segundo, o menos óbvio: o cachorro sorriu para o nosso personagem, uma pequena licença poética para um provável abanar de rabo, uma reação alegre ao ver o seu dono. O detalhe dissonante é que o cão latiu, o que é curioso, porque normalmente cachorros latem para estranhos. Chegamos, portanto, a um pequeno paradoxo: por que um cachorro reagiria FELIZ a alguém que ele ESTRANHOU?

Ora, todo mundo sabe que os animais conseguem enxergar coisas que os limitados olhos humanos jamais vislumbrariam. O que este verso deixa explícito é que este cãozinho está enxergando o ectoplasma esbranquiçado do seu antigo dono parado em frente ao portão. Uma estranha e fantasmagórica presença que confunde a cabeça do pequeno dogue. Afinal este cão deve ter visto o velório na casa, acompanhado o enterro, essas coisas. Pobre animal.

Minhas malas coloquei no chão

Eu voltei

Não se deixem ludibriar pelo falso realismo deste verso. Soltar as malas no chão é apenas um simbolismo, o gesto de quem está querendo se livrar de um peso antes de atravessar um portal (notem a similaridade entre portão/portal). Significa que o personagem desencarnado quer deixar para trás a dor que carrega, não quer levar para dentro de seu antigo lar os problemas do mundo dos mortos. Que, acreditem, não são poucos. Trata-se de um mero despiste metafórico, O ÚNICO da canção inteira. Mas ainda assim está totalmente inserido no contexto da canção.

Tudo estava igual como era antes

Quase nada se modificou

Acho que só eu mesmo mudei e voltei

O que há de tão diferente nele diante de tudo que o cerca agora? E mais: por que por que ele acha que APENAS ele teria mudado? Ao que parece, esse personagem está morto, mas NÃO SABE que está. Tal como o personagem do Bruce Willis em “O Sexto Sentido”, o sujeito desta canção nega a si mesmo que já virou adubo e quer de volta sua vida de antes. Resumindo: trata-se de um puta dum ENCOSTO! Problemaço cujo refrão deixa mais do que explícito:

Eu voltei agora pra ficar!

Porque aqui, aqui é o meu lugar!

Eu voltei pras coisas que eu deixei!

Eu voltei!

Quem já participou de uma sessão espírita, ou de possessão, sabe como os espíritos podem ser renitentes. Todos eles dizem frases como essas, “eu vou ficar!”, ou “daqui não saio”, ou “deixei minhas coisas aqui”. Trata-se claramente de um espírito perturbado do tipo que não sairá do ambiente nem se fizerem faxina com um buquê de arruda e sal grosso.

Fui abrindo a porta devagar.

Mas deixei a luz entrar primeiro

Todo meu passado iluminei.

E entrei.

Que tipo de pessoa chega depois de tanto tempo e vai abrindo a porta devagar sem bater, sem tocar a campainha, sem usar chaves, sem avisar, nem nada? Tudo muito estranho para alguém de carne e osso. Mas nada incomum pra quem já é um gasparzinho faz tempo. Notem o clima da porta se abrindo lentamente, a luz entrando, o mistério… faltou só o ranger de dobradiça para se tornar uma autêntica cena de filme de terror.

Meu retrato ainda na parede

Meio amarelado pelo tempo

Como a perguntar por onde andei

E eu falei.

Quem, em sã consciência, fala com um retrato? Ora, quem não pode SER OUVIDO POR NINGUÉM, é claro! É a imagem perfeita da solidão de uma alma penada que não tem com quem conversar. Há um leve desespero aqui. Eu aposto que em poucas semanas este espírito se revoltará por não ser ouvido e começará a abrir e fechar armários, derrubar copos, sumir com chaves, aparecer em espelhos pela casa. Poltergeist vai ser pinto perto do que este ectoplasma está prestes a fazer.

Onde andei não deu para ficar!

Porque aqui, aqui é o meu lugar!

Eu voltei pras coisas que eu deixei!

Eu voltei!

Aqui fica claro que esta alma não gostou do lugar para onde foi. Dá para deduzir que ela não se dirigiu para a luz quando deveria e foi parar no LIMBO, o lugar “onde não deu para ficar”. E, convenhamos, o limbo é um saco. De fato, existem lugares muito melhores, até o inferno é mais divertido, pelo menos lá os bares fecham mais tarde.

Sem saber depois de tanto tempo

Se havia alguém a minha espera

Passos indecisos caminhei

E parei

Outra atitude estranha para alguém vivo, mas normal para um colega do Pluft. Se ali era a casa dele, como ele não saberia se alguém o espera? O que este verso revela, numa leitura mais atenta, é um ato falho. Este personagem no fundo sabe que NINGUÉM O ESPERA porque ele já tá comendo grama pela raiz há muito tempo. Os passos indecisos revelam a insegurança de quem não tem coragem de enfrentar a verdade. Afinal, quem é vivo sempre aparece e este cara NÃO VAI aparecer. Chegamos então à última e mais polêmica estrofe.

Quando vi que dois braços abertos

Me abraçaram como antigamente

Tanto quis dizer e não falei

E chorei

A estranheza destes versos revela algo muito mais perturbador do que se imagina. Reparem que o “quando vi” marca uma aparição repentina tanto na música quanto para o personagem. Os “braços abertos” surgem do nada, sem dizer olá, como vai, como foi, e o abraçam, caindo de pára-quedas na canção. Pergunto: isto é normal? E por que o personagem não diz de quem são esses braços? Ele apenas se virou e deu de cara com alguém de braços abertos querendo abraçá-lo como antigamente? Que raio é isso?

Para mim está claro que estes braços são de outro personagem, uma outra presença dentro da casa. Certamente é algum ESPÍRITO-GUIA que surge do nada, como costumam fazer espíritos-guia, e tenta tirar nosso personagem à força dali. O clima da música é claro: nosso personagem chora e repete o refrão dizendo que “ele voltou e ali é o seu lugar”. Sim, é uma briga. Até o tom da voz de Roberto sobe neste auge da música. Um clímax perfeito.

O máximo que este outro espírito consegue, entretanto, é arrastar nosso personagem para fora da casa e deixá-lo outra vez em frente ao portão. Tanto que os dois últimos versos da canção repetem os dois primeiros.

Eu cheguei em frente ao portão

Meu cachorro me sorriu latindo

O que significa que nosso personagem, na maior tradição dos encostos, continuará rondando em volta da casa até entrar novamente, numa eterna danação, ou até que os donos ainda vivos resolvam contratar um padre exorcista ou uma benzedeira. Ele não desistirá. O caso real de Amityville começou assim. Se eu fosse Hollywood compraria esta história.


LETRAS MORTAS 2

03/06/2010

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E se a morte não soubesse que é a morte
e trouxesse em seu beijo a mensagem dos anjos
e não carregasse a foice com sangue coalhado
das vidas ceifadas em seu caminho cego?

E se a morte fosse apenas alguém sem norte
que sonhasse ou buscasse um eterno arranjo
que também recontasse todo o seu passado
e se ela criasse, do nada, um outro alter-ego?

E se a morte entrasse em sua vida como o sol?
E se ela lhe sorrisse e lhe piscasse nas manhãs
como o flerte com alguém que você desconhece?

E se ela estivesse tão perto que você não a visse?
Ou tão lhe incrustada que nem mesmo a sentisse?
E se a morte fosse você e você não soubesse?

MORTE


À SOMBRA DAS CHUTEIRAS MORTAIS

02/06/2010

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O futebol é um esporte estúpido. Mas mais estúpido é quem curte futebol. Embora não veja muita graça num bando de 22 idiotas correndo atrás de uma bola, eu não poderia ficar alheio a tudo o que vai acontecer durante as próximas semanas. Por isto resolvi estrear esta nova seção do Diário da Foice, o MATANDO A BOLA, onde tentarei falar um pouco de futebol. Notem bem o que eu disse: vou TENTAR! Se eu não conseguir, vocês me avisem. Quer dizer, quem tiver coragem de me avisar.

Para começar, não mencionarei Garrincha, Pelé, Zico, ou qualquer outra vaca sagrada do futebol que vocês adoram idolatrar. Não tenho e nunca tive jogadores como ídolos, e não vai ser agora, na altura dos meus vinte bilhões e setecentos e poucos anos, que vou endeusar seres ridículos só porque sabem ou sabiam bater numa esfera inflada. Os meus heróis deste esporte não frequentam os gramados. Eles são parte das arquibancadas, da geral, são os pequenos homens comuns que fazem parte da TORCIDA.

Sinto saudades dos tempos gloriosos em que sempre rolava um bom servicinho nos românticos quebra-paus entre torcidas organizadas. Nada a ver com as badernas de hoje, onde raramente sai um tumulto digno desse nome. Antigamente a coisa era mais livre, mais aberta, quer dizer: vocês abriam mais as cabeças um dos outros na base da porrada, e isso era apaixonante. Tinha jogo em que eu chegava a levar mais de dez por partida.

Mas o que me faz arrepiar mesmo é a doce lembrança dos hoolligans ingleses dos anos 80. Para mim, eles sim é que são os reis do futebol e o meu momento inesquecível foi a Taça dos Campeões Europeus de 1985, um marco histórico do esporte. Aquilo é que foi emoção! A violência daqueles ingleses não dava para comparar com nenhuma outra torcida do mundo. Não foram como aqueles atos de vandalismo meia-boca que as torcidinhas latino-americanas costumam fazer, quebrando orelhões e tomando cacetada de PM. Não, na Europa é outro papo. Até nisso o primeiro mundo é melhor.

O que vi de gente levando traulitada valeu por assistir umas cinquenta finais de Ultimate Fighting, só que com mais sangue. Os conterrâneos dos Beatles deram tanta porrada em italianos que encheria Churchill de orgulho se eu já não o tivesse levado na época. Não sei dizer até hoje quem foi que jogou, quem foi que marcou, quem ganhou ou perdeu. Os jogos devem ter sido aquela coisinha chôcha de sempre, mas fora de campo, meus amigos… Modéstia à parte, foi uma goleada de minha parte: 38 mortos numa quebradeira só! O episódio ficou conhecido como a “Tragédia de Heysel” e fico emocionado só de me lembrar.

Uma pena que tão espetacular embate nunca mais tenha se repetido. Os bretões pegaram cinco anos de suspensão em campeonatos europeus e, na minha opinião, foi o início da decadência do esporte na Europa. Futebol sem hooligans não dá pra engolir. O desestímulo à violência nos estádios tirou todo potencial de paixão que havia no esporte. Estava iniciada a era do bunda-molismo nas arquibancadas. Qual a graça de entrar em um estádio com a certeza de que se vai sair vivo? Nenhuma! Por isto parei de frequentar a maioria dos jogos e o número de mortes nos estádios caiu drasticamente. Perdeu a graça.

Tenho uma ligeira esperança de que na África do Sul os torcedores usem algo mais agressivo do que as vuvuzelas. Sinceramente, não boto muita fé nessa Copa e isso não tem nada a ver com a escalação de merda do Dunga. Acho que meu trabalho será o de levar meia dúzia de cardíacos durante os jogos da seleção e só. Com sorte rola alguma metralhada em ônibus de time africano. Estou na torcida!

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A Morte não irá a Àfrica do Sul para acompanhar a Copa. Mas caso alguém queira assistir um ataque de leopardo seguido de morte, é só avisar que ele tem ingresso de camarote sobrando na mão.


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